background image

Aprender a Viver Juntos

7

Ética e educação ética

Desde que as pessoas começaram a viver juntas em comunidades, tornou-se necessária a regulação 
moral do comportamento em nome do bem-estar da comunidade; isso é o que conhecemos como 
ética. É importante que os usuários de Aprender a Viver Juntos cheguem a um consenso sobre o que 
são e o que significam a ética, os valores e a educação moral.

Quando perguntamos: “O que a ética significa para você?”, as respostas podem ser muito variadas:

“A ética tem a ver com o que meus sentimentos me dizem que está certo ou errado.”
“A ética se refere a minhas crenças religiosas.”
“Ser ético é fazer o que a lei exige.”
“Ética são as normas de comportamento que nossa sociedade aceita.”

Muitas pessoas tendem a equiparar a ética aos seus sentimentos. Mas ser ético não é simplesmente 
uma questão de atuar conforme o que você sente, dado que os sentimentos não constituem uma base 
adequada para determinar o que é ético.

A ética também não pode ser equiparada por completo com a religião. A maioria das religiões defende 
princípios éticos elevados. Entretanto, se a ética se limitasse à religião, seria aplicável unicamente às 
pessoas de fé. E a ética se refere ao comportamento tanto da pessoa crente quanto da não crente.

Ser ético também é mais do que simplesmente cumprir a lei. Frequentemente a lei incorpora princípios 
éticos adotados pela maioria dos cidadãos. Mas as leis, assim como os sentimentos, podem se desviar 
do  que  é  ético.  A  história  nos  fala  de  sociedades  cujas  leis  sancionavam  a  escravidão.  Em  várias 
sociedades,  o  papel  secundário  da  mulher  está  consagrado  na  lei.  Provavelmente  ainda  existem 
mulheres que se lembram do tempo em que a lei lhes proibia votar.

Da  mesma  forma,  ser  ético  não  consiste  em  fazer  “aquilo  que  a  sociedade  aceita”.  Os  padrões
de comportamento da sociedade podem se desviar do que é ético.

Além disso, se agir de forma ética consistisse em fazer “aquilo que a sociedade aceita”, em primeiro 
lugar seria necessário determinar qual é a norma. Nas questões polêmicas – aquelas que mais nos 
confundem – a única forma de fazer isto seria realizar uma pesquisa de opinião. Mesmo assim, a falta 
de consenso na sociedade impediria uma articulação clara do que é o comportamento ético.

Então, o que é ética? Em primeiro lugar, a ética se refere a normas cuidadosamente ponderadas sobre 
certo e errado que ditam o que os seres humanos devem fazer, normalmente em termos de direitos, 
obrigações, benefícios à sociedade, justiça ou virtudes específicas. A ética está relacionada às normas 
que impõem obrigações razoáveis quanto à abstenção de estupro, roubo, assassinato, agressão, ofensa 
e  fraude.  Os  princípios  éticos  também  estimulam  virtudes  como  a  honestidade,  a  compaixão  e  a 
lealdade e a satisfação das necessidades humanas básicas. O sociólogo Johan Galtung perguntou a 
pessoas de cerca de 50 países o que consideravam essencial para viver, deduzindo do resultado dessa 
pesquisa as necessidades humanas básicas, como bem-estar, identidade e liberdade.

10

Em segundo lugar, a ética se refere ao estudo e ao desenvolvimento de padrões éticos. Dado que os 
sentimentos, as leis e as normas sociais podem se desviar do que é ético, é necessário examinar os 
próprios padrões para determinar se são razoáveis. E ética também consiste em um esforço contínuo 
de avaliar nossas crenças e nossa conduta moral e no empenho de garantir a adesão – tanto de nossa 
parte quanto da parte das nações e instituições que ajudamos a construir – a princípios razoáveis e 
bem  fundamentados,  seja  em  sistemas  de  crenças  religiosas  ou  culturais  ou  em  instrumentos 
internacionais.

11

10  Johan  Galtung,  Human  Needs,  Humanitarian  Intervention,  Human  Security  and  the  War  in  Iraq,  discurso  inaugural,  Universidade 

Sophia, Tóquio, 2004. http://www.transnational.org/SAJT/forum/meet/2004/Galtung_HumanNeeds.html

11  Adaptado de Hans Ucko, ’Ethics, law and commitment’, Current Dialogue, Edição 46, dezembro de 2005, http://www.wcc-coe.org/wcc/

what/interreligious/cd46-09.html

background image

Aprender a Viver Juntos

8

Ética, valores e moral

A dificuldade de distinguir entre os conceitos de “ética”, “valores” e “moral” logo se torna evidente.

As seguintes definições aparecem no Dicionário da Língua Portuguesa:

12

Ética: Parte da Filosofia que estuda os fundamentos da moral e conjunto de regras de conduta.
Valores: Princípios ideológicos ou morais pelos quais se guia uma sociedade.
Moral: Ciência dos deveres do homem. Bons costumes.

A  ética  consiste  em  crenças,  ideias  e  teorias  que  permitem  estabelecer  princípios.  A  moral  está 
relacionada  mais  diretamente  ao  comportamento.  Valores  são  aquilo  que  é  aceito  por  um  grupo, 
comunidade  ou  sociedade.  Todos  estes  aspectos  são  importantes  e  estão  inter-relacionados.  Uma 
pessoa pode ter princípios elevados mas não viver de acordo com eles, o que equivale a ter uma ética 
firme mas uma moral fraca. Os valores de um grupo específico podem ser inaceitáveis para outro.

Os filósofos franceses Paul Ricoeur

13

 e Guy Bourgeault,

14

 por exemplo, geralmente reservam o termo 

“ética” para aludir à reflexão fundamental sobre questões essenciais da conduta humana (por exemplo, 
o propósito e significado da vida, o fundamento da obrigação e da responsabilidade, a natureza do 
bem e do mal, o valor da consciência moral) e reservam o termo ‘moral’ para se referir à aplicação, ao 
concreto, à ação. Além disso, o termo “ética” geralmente sugere um questionamento e uma mente ou 
espírito aberto, enquanto ‘moral’ via de regra refere-se a sistemas definidos de preceitos, à expressão 
normativa de regras cujo propósito é orientar a ação.

A ética trata das relações

As exigências éticas, como quer que as concebamos, têm a ver com as relações. O teólogo dinamarquês 
K. E. Loegstrup introduz a ideia de que a exigência ética que pesa sobre os seres humanos se refrata 
como a luz através de um prisma, revelando todas as diferentes formas em que estabelecemos relações 
uns com os outros.

15

O  tipo  de  relação  que  uma  pessoa  escolhe  ter  consigo  mesma,  com  os  outros  e  com  a  Terra,  que 
sustenta todas as formas de vida, constitui a principal manifestação de ética e valores. A fonte das 
normas e dos comportamentos éticos pode ser atribuída a uma presença divina, como uma revelação 
por parte de uma Divindade ou mestre espiritual dotado de sabedoria infinita, ou ao conhecimento 
dos princípios que regem os direitos humanos.

As fontes do comportamento ético podem ser muito variadas, de modo que a questão primordial é 
em  que  medida  a  ética  nos  ajuda  a  discernir  e  responder  à  interconexão  que  existe  entre  todas  as 
formas de vida, a promover valores humanitários e a forjar e estimular um sentido de comunidade.

12  Dicionário PRIBERAM da Língua Portuguesa. www.priberam.pt
13  Paul Ricoeur, Soi-même comme un autre, Paris, Seuil, 1990.
14  Guy Bourgeault, L’éthique et le droit face aux nouvelles technologies médicales, Les Presses de l’Université de Montréal, Montreal, 1990.
15  K.E. Loegstrup, Ethical Demand, University of Notre Dame Press, Notre Dame e Londres, 1997.

background image

Aprender a Viver Juntos

9

Todas as comunidades religiosas consideram a ética não como uma parcela limitada da existência, 
mas  como  algo  que  se  aplica  a  todos  os  âmbitos  da  vida:  ao  indivíduo,  à  família,  ao  trabalho  e  à 
sociedade. A ética islâmica, por exemplo, engloba todas as virtudes morais comumente conhecidas. 
Ela se ocupa de todos os aspectos da vida individual e coletiva da pessoa: suas relações no lar, sua 
conduta cívica e suas atividades nas esferas política, econômica, jurídica, educacional e social. Ela 
abrange toda a vida de uma pessoa, do lar à sociedade, da mesa ao campo de batalha e às conferências 
de paz – literalmente, do berço à sepultura.

De  acordo  com  esta  ênfase  tanto  no  indivíduo  como  na  comunidade,  na  maioria  das  religiões 
tradicionais da África há um dito que reza: “A pessoa é pessoa apenas em relação às outras”.

Em  razão  desta  interconexão,  buscamos  valores  éticos  que  ajudem  as  crianças  a  desenvolver  um 
sentimento  de  comunidade  não  apenas  com  aqueles  que  estão  em  seu  círculo  mais  imediato,  mas 
também  por  cima  de  barreiras  étnicas,  nacionais,  raciais,  culturais  e  religiosas.  Perseguimos  e 
estimulamos  valores  que  promovam  um  sentimento  de  responsabilidade  mútua  em  um  mundo 
interdependente.

Existem valores perenes?

Muitas  comunidades  expressam  os  valores  éticos  em  termos  concretos  que  determinam  atitudes  e 
padrões de conduta, como amor e compaixão, justiça e igualdade, honestidade e generosidade, não-
violência e autocontrole. Essas comunidades podem dar ênfase a máximas éticas de caráter universal, 
como “Amarás ao próximo como a ti mesmo” ou “Não faças com os outros o que não queres que 
façam a ti”, na crença de que viver de acordo com estes princípios resulta em uma conduta ética. Uma 
insistência  deliberada  no  desenvolvimento  de  atitudes  e  capacidades  concretas  na  infância  pode 
promover naturalmente um comportamento ético.

A UNESCO identificou alguns valores universais relacionados ao crescimento pessoal que tornam a 
a criança capaz de se relacionar de forma criativa com o mundo que a rodeia: alimentar a autoestima 
da criança; fomentar sua capacidade de escolher e de assumir a responsabilidade por suas escolhas, 
sua  capacidade  de  tomar  decisões  justas,  sua  disposição  para  respeitar  os  outros  e  seus  pontos
de vista, sua vontade de assumir compromissos e mantê-los. Estes são exemplos das muitas qualidades 
que  definimos  como  valores  e  que  devemos  cultivar  nas  crianças  para  ajudá-las  a  pensar  e  agir
de maneira ética.

16

Frequentemente são as relações que forjam a identidade da pessoa. Filhas e filhos têm diferentes tipos 
de relações com a mãe ou o pai; ser aluno em uma escola determina outro aspecto da identidade, 
assim como o fazem a família e o ambiente cultural. As tradições – familiares, locais e nacionais – 
forjam a identidade, as crenças e os valores de uma pessoa. Os acontecimentos – pessoais, nacionais, 
regionais, globais – também contribuem para o processo de formação da identidade.

A  identidade  religiosa,  espiritual  e  cultural  é  formada  de  modo  similar.  A  exposição  a  diferentes 
costumes e crenças religiosas e culturais, à singularidade de cada religião e cultura, não diminui a 
fidelidade  à  própria  tradição  religiosa,  espiritual  ou  cultural.  Se  a  realidade,  com  sua  pluralidade 
religiosa e cultural, é transmitida com uma atitude aberta, afetuosa e harmônica, na qual as figuras 
de autoridade suscitam respeito e afeto no lugar de temor, não existe ameaça alguma para as próprias 
tradições.  Todo  o  ambiente  educativo  deve  estar  imbuído  da  noção  de  aceitação  e  conhecimento 
mútuos, assim como da ideia de igualdade em termos de legitimidade, o que significa que todas as 
crenças ou práticas têm o mesmo valor e nenhuma é considerada superior. Imersos nessa diversidade, 
devemos salientar o que é comum a todos – nossa natureza humana. A imagem não é a de um caldeirão 

de culturas onde tudo é mesclado, mas a de um mosaico em que cada identidade cultural tem sua própria 

importância e reconhecimento, em uma afirmação da riqueza contida na diversidade.

16  A UNESCO enumera estes e muitos outros “valores humanos” em Eliminating Corporal Punishment: The Way forward to constructive 

Child Discipline, Stuart N. Hart (Ed), Paris, UNESCO, 2005. A lista de valores foi elaborada por um painel de cinco especialistas 
internacionais na esperança de que reflitam valores éticos/morais que transcendam as fronteiras culturais.

background image

Aprender a Viver Juntos

10

Ter um sentido da própria identidade exige autonomia: independência, liberdade de pensamento, de 
expressão e de ação e ausência de temor à censura ou ao castigo caso nossas crenças conflitem com as 
da maioria ou das autoridades governantes. O respeito por si mesmo e a autoestima são essenciais não 
só porque nos fazem merecedores do respeito dos outros, mas também porque constituem a base do 
respeito pelos outros.

É comum que a ética seja entendida como uma série de valores pessoais que colocamos em prática em 
nossa  vida  cotidiana.  Mas  o  mundo  em  que  vivemos  nos  obriga  cada  vez  mais  a  pensar  e  atuar 
também em termos globais. A pobreza e a privação de que padecem milhões de pessoas, a exploração 
abusiva dos recursos do planeta, as crises ecológicas, a escalada da violência e de conflitos bélicos e a 
cultura  da  ambição  e  da  acumulação  exercem  um  novo  tipo  de  pressão,  obrigando-nos  a  praticar 
nossos valores éticos também em nossa vida dentro da comunidade mundial. Nós – e nossos filhos – 
precisamos  de  uma  sensibilidade  ética  que  nos  ajude  a  estabelecer  relações  com  outras  culturas  e 
civilizações,  por  cima  de  barreiras  nacionais  e  étnicas  e  além  de  identidades  e  compromissos 
religiosos. Muitos estão começando a buscar respostas que os ajudem a lidar com o presente e a se 
preparar para o futuro.

Princípios éticos e valores fundamentais para a educação ética

Já houve várias tentativas de chegar a um consenso sobre valores éticos comuns que todos os grupos 
religiosos pudessem afirmar e praticar. Uma dessas tentativas foi um documento divulgado em 1993, 
por ocasião do Centenário do Parlamento das Religiões do Mundo, celebrado em Chicago em 1993 
sob a direção de Hans Küng. Este documento, sob o título Rumo a uma Ética Global (Towards a 
Global Ethic
), atualmente é conhecido e aceito em todo mundo e constitui uma fonte de inspiração 
para  um  eventual  acordo  entre  povos  que  possuem  pontos  de  vista  diferentes  acerca  dos  valores 
comuns que deveriam guiar a comunidade humana em seu conjunto.

17

Desde 1993, foram feitas outras tentativas de elaborar um esboço dos critérios éticos para diversas 
esferas sociais que possam ser ratificados pela comunidade mundial. Devido à enorme diversidade de 
religiões, culturas e maneiras de viver existentes no mundo, elaborar e implementar acordos comuns 
é  uma  tarefa  difícil.  Contudo,  parece  haver  um  consenso  quanto  à  ideia  de  que,  como  uma 
comunidade  humana,  devemos  tentar  chegar  a  um  consenso  sobre  princípios  éticos  pelo  bem  das 
gerações futuras.

Um  aspecto  fundamental  da  criação  de  um  futuro  melhor  é  ajudar  as  crianças  a  desenvolverem 
valores éticos. Contudo, os valores estabelecidos em escala mundial também devem ser aplicáveis em 
escala local, já que as comunidades de diferentes lugares e culturas, evidentemente, estão em melhor 
posição para decidir quais valores consideram fundamentais e desejam fomentar em suas crianças. 
De qualquer maneira, talvez nos surpreendesse descobrir a quantidade de aspectos coincidentes que 
existem entre códigos éticos desenvolvidos de maneira independente.

A capacidade de escolher: o melhor presente e a responsabilidade 
mais difícil

A  capacidade  de  escolher  entre  diferentes  alternativas  é  um  dos  grandes  dons  da  vida  humana. 
Evidentemente, nem sempre obtemos aquilo que escolhemos, mas possuímos a capacidade e o direito 
de distinguir, rejeitar e escolher. Segundo uma interpretação da tradição judaica, no relato da criação 
do ser humano, Adão e Eva, o primeiro homem e a primeira mulher, foram colocados no Jardim do 
Éden, onde havia duas árvores: a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. 
Adão e Eva foram informados das consequências de comer os frutos destas árvores. Eles provaram o 
fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Foi um erro ou uma escolha deliberada?

17  Declaração Rumo a uma Ética Global. Conselho do Parlamento das Religiões do Mundo, em: http://www.parliamentofreligions.org/_

includes/FCKcontent/File/TowardsAGlobalEthic.pdf

background image

Aprender a Viver Juntos

11

Harold Kushner sugere que esta escolha é o que nos faz humanos:

“Nossos primeiros antepassados escolheram ser humanos em vez de viver para sempre. Escolheram o 
sentido da moral, o “conhecimento do bem e do mal”, em vez da imortalidade. Rejeitaram a Árvore 
da Vida, que lhes teria dado a vida eterna, em favor da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, 
que lhes deu uma consciência. Em compensação, Deus concedeu aos humanos – que agora compartilham 
com Ele a capacidade de distinguir o bem do mal – o dom do Seu próprio poder divino de criar vida. 
Escapamos  da  morte  não  vivendo  para  sempre,  mas  trazendo  ao  mundo,  criando  e  educando  as 
crianças como continuadoras de nossas almas, de nossos valores e até de nossos nomes.” 

18

A capacidade humana de escolher entre diferentes alternativas é reconhecida e afirmada em todas as 
religiões. Ao mesmo tempo, a capacidade de escolher é uma responsabilidade altamente complexa e 
desafiadora.  Ela  requer  a  habilidade  de  discriminar,  discernir  e  tomar  decisões,  enfrentando  ao 
mesmo tempo o dilema da incapacidade de prever e avaliar plenamente o efeito de nossas decisões, 
que  afetam  não  só  a  nós  mas  também  ao  mundo  que  nos  rodeia.  Os  princípios  e  valores  éticos 
desempenham um papel fundamental ao nos ajudar a fazer essas escolhas.

Salvaguardar e defender a dignidade humana

O conceito da dignidade humana sintetiza aquilo que a educação ética persegue ao promover valores 
e princípios éticos. A humanidade de uma pessoa é negada quando sua dignidade é conspurcada. A 
dignidade humana pode ser ameaçada de diferentes maneiras.

A negação das necessidades básicas para a sobrevivência é uma afronta à própria dignidade. Segundo 
um provérbio Sique, “a boca do pobre é o cofre onde Deus guarda seus tesouros”. Esta frase expressa 
um dos valores fundamentais comuns a todas as religiões: a dignidade humana. O provérbio afirma 
que  a  pobreza,  a  fome  e  a  privação  são  uma  afronta  a  Deus.  Todas  as  cerimônias  do  culto
terminam  com  um  langar,  uma  refeição  comunitária  aberta  a  todos,  independentemente  de  casta, 
Sique nível social, filiação religiosa ou nacionalidade. De fato, nos Gurdwaras, os lugares de culto Sique,
há uma cozinha aberta o dia todo para atender não só aos crentes, mas a qualquer pessoa em busca de 
uma refeição.

Para o islamismo, atender às necessidades dos pobres constitui um dos cinco pilares da fé; todos os 
crentes devem destinar uma porcentagem de sua renda para ajudar os necessitados. Amar a Deus e 
amar o próximo como a si mesmo são mandamentos do judaísmo e do cristianismo. Além disso, a 
tradição  judaica  afirma  que  os  seres  humanos  foram  criados  à  imagem  e  semelhança  de  Deus;  a 
tradição veda do hinduísmo considera que Brama, a Realidade Última, e Atman, a Realidade no ser 
humano, são uma mesma coisa e não duas diferentes. Os ensinamentos de Buda também questionam 
a discriminação de casta e promovem a igualdade entre mulheres e homens.

As  tradições  religiosas  nem  sempre  foram  fiéis  a  estes  ensinamentos,  gerando  ocasionalmente 
estruturas  e  práticas  prejudiciais  à  dignidade  das  pessoas  tanto  dentro  como  fora  de  suas  próprias 
comunidades. Entretanto, todas as tradições religiosas consideram a negação da dignidade humana 
como uma aberração. A dignidade faz parte do que significa ser humano.

Respeito e compreensão mútua

O direito das pessoas à dignidade e ao respeito é básico nos documentos que se ocupam dos direitos 
humanos, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção sobre os Direitos da 
Criança. 

18  Harold S. Kushner,The Lord is My Shepherd, Nova York, EUA, First Anchor Books Edition, 2004, pp. 23-24

background image

Aprender a Viver Juntos

12

A maioria das nações reconhece os direitos universais à sobrevivência, desenvolvimento, proteção e 
participação  para  todas  as  pessoas,  sem  distinção  de  idade,  gênero,  raça  ou  religião.  Um  comitê 
internacional monitora o respeito aos direitos dos menores de 18 anos, que tanto dependem das ações 
e  decisões  dos  adultos,  e  apresenta  suas  observações  e  críticas  a  cada  país  em  um  documento 
detalhado. Os direitos compreendidos nestes e outros documentos das Nações Unidas relativos aos 
direitos humanos são inalienáveis e universais, devendo ser ensinados a todos, de qualquer cultura ou 
credo.  Estes  direitos  constituem  o  que  a  comunidade  mundial  reconhece  como  os  princípios 
fundamentais  para  a  natureza  humana,  não  podendo  ser  objeto  de  menosprezo,  alienação  ou 
modificação por parte de qualquer pessoa ou organização.

Muitas tradições religiosas e leigas estão convencidas da verdade de suas próprias crenças e algumas 
podem se sentir impelidas a compartilhá-las com os outros. Entretanto, hoje em dia a maioria das 
tradições reconhece o respeito mútuo como um valor indispensável que deve caracterizar todos os 
nossos  relacionamentos.  O  conceito  de  respeito  mútuo  é  importante  na  medida  em  que  afirma  as 
diferenças e não confunde “diferente” com “errado” nem permite que diferenças naturais e legítimas 
se convertam em cisões. O respeito mútuo aumenta conforme adquirimos uma maior compreensão e 
apreciação das diferenças e semelhanças. Ajuda-nos a estabelecer relações apesar de nossas diferenças 
e contribui para que possamos nos corrigir e nos enriquecer mutuamente e exercer a autocrítica.

O respeito à dignidade de todas as pessoas pode, indubitavelmente, constituir o valor fundamental e 
o  princípio  básico  da  educação  ética  da  infância.  A  salvaguarda  e  defesa  da  dignidade  humana 
implica uma série de valores que ajudam crianças e adolescentes a respeitarem e valorizarem os outros 
e a si mesmos como seres humanos, fazendo uso de atitudes e de uma mentalidade que contribuem 
para forjar relações plenas com os outros.

A dignidade é importante no contexto de contínua pluralidade porque, ao longo da história, algumas 
tradições religiosas adotaram uma atitude de “tudo ou nada” com relação às outras, o que se reflete 
em posições como: se nossa doutrina é certa, a sua é errada; se temos a verdade, os outros não a têm; 
se nossos costumes conduzem à realização do destino humano, os dos outros são enganadores.

Empatia e a capacidade de “se colocar no lugar do outro”

Toda  relação  de  afeto  é  centrada  na  empatia  –  a  capacidade  de  penetrar  na  experiência  do  outro, 
compreendendo e compartilhando sua alegria e sua tristeza, sua felicidade e sua angústia.

A empatia combina duas capacidades importantes dos seres humanos, a de analisar e a de compadecer-
se, usando ao mesmo tempo a cabeça e o coração. Analisar significa coletar dados sobre um problema, 
observar  as  condições,  encontrar  as  causas  subjacentes  e  propor  soluções.  Compadecer-se  significa 
sentir o que o outro sente, a dor de quem sofre ou a raiva de quem está furioso.

Uma antiga oração dos índios sioux reza: “Oh, Grande Espírito, conceda-me a sabedoria para caminhar 
nos sapatos do outro antes de criticar ou julgar.” Quando sentimos empatia por alguém, deixamos de 
lado nossa expectativa de que o outro seja como nós; aceitamos o fato de que ele contribui com algo 
único  para  a  relação.  Ao  mesmo  tempo,  é  também  a  empatia  que  nos  ajuda  a  ver  e  reconhecer  as 
injustiças perpetradas contra os outros e a adquirir a determinação de combater essas injustiças.

As  tradições  religiosas  exortam  à  empatia  com  os  pobres,  os  marginalizados  e  os  oprimidos.  A 
tradição judaica o confirma dizendo: “[…] porque vocês foram escravos no Egito”. A tradição cristã 
pede aos discípulos para “recordar aqueles que estão presos como se fossem seus companheiros na 
prisão  e  aqueles  que  são  maltratados  como  se  fossem  vocês  que  sofressem”.  A  tradição  islâmica  se 
refere ao mês do Ramadã como o mês da paciência, da empatia e da autopurificação. Para os budistas, 
o equivalente da empatia é a bondade afetuosa, que para eles vai muito além da compaixão – uma 
mera forma de pena pelo outro – e aponta para a absoluta e imediata identificação com o outro que 
conhecemos como empatia. Os direitos humanos são construídos sobre a base da igualdade absoluta: 
os  direitos  são  universais  e  algumas  pessoas  têm  a  responsabilidade  concreta  de  fazer  com  que  os 

background image

Aprender a Viver Juntos

13

direitos dos outros sejam respeitados, como exemplifica a Convenção sobre os Direitos da Criança. 
Cuidar do cumprimento dos direitos dos outros é fundamental tanto nas tradições religiosas quanto 
nas seculares.

O chamado à empatia pela experiência do outro talvez seja um dos valores mais extraordinários que 
podemos legar às nossas crianças.

Responsabilidade individual e coletiva

Estamos,  cada  vez  mais,  descobrindo  o  significado  da  palavra  “responsabilidade”  quando  nos 
defrontamos com os problemas do mundo. Muitos são os que se apressam a exigir seus “direitos”, 
mas  esquecem  as  responsabilidades  que  acompanham  esses  privilégios.  Somos  responsáveis  pela 
maneira  como  criamos  nossos  filhos;  se  negligenciamos  essa  responsabilidade,  eles  podem  se 
desencaminhar.  Os  governos  são  responsáveis  pela  manutenção  da  coesão  e  da  paz  social;  quando 
ignoram esta responsabilidade, o resultado pode ser o caos social. É responsabilidade e obrigação da 
sociedade  garantir  a  distribuição  justa  dos  recursos  e  a  satisfação  das  necessidades  básicas;  a 
negligência pode resultar em conflitos e violência. Todas as pessoas têm a responsabilidade de cuidar 
da Terra; o descaso com essa responsabilidade nos colocou à beira do desastre ecológico.

A  lista  pode  ser  ampliada  para  abranger  praticamente  todas  as  relações  pessoais,  sociais  e  globais. 
Todas  as  relações  dependem  da  responsabilidade  mútua  e  do  cumprimento,  por  cada  um,  de  suas 
obrigações para com a sociedade. Uma responsabilidade coletiva de cuidar uns dos outros poderia 
permitir que vivêssemos em um mundo mais justo e pacífico.

A responsabilidade não é uma escolha: é um valor ético fundamental que deve ser consagrado nos 
corações  e  mentes  das  crianças  desde  o  momento  em  que  começam  a  estabelecer  relações
com  os outros e com o mundo à sua volta.

Reconciliação e a abordagem de construção de pontes

Muitos  encaram  a  reconciliação  como  um  dos  passos  para  implantar  a  paz  e  reparar  relações  no 
âmbito pessoal e comunitário. Hoje em dia, é cada vez mais óbvio que a reconciliação não é só uma 
ação  prática,  mas  também  um  projeto  de  vida.  Em  outras  palavras,  a  reconciliação  não  só  é  um 
remédio;  é  uma  orientação  para  lidar  com  os  problemas  inevitáveis,  as  profundas  divergências  e 
conflitos que ocorrem na vida comunitária. A reconciliação passou a ocupar o primeiro plano como 
valor ético devido à tendência humana de solucionar diferenças e desavenças recorrendo à violência. 
A violência parece ser concebida como um meio fácil e rápido de resolver conflitos, mas não oferece 
uma  solução  duradoura.  Ao  contrário,  tudo  o  que  faz  é  exacerbar  a  inimizade  e  a  insatisfação.  O 
ânimo conciliador deve ser enfatizado como um valor ético imprescindível em nossos dias.

Aprender a Viver Juntos se concentra em quatro valores éticos que devem fazer parte da educação ética 
das crianças em uma sociedade globalizada caracterizada pela pluralidade religiosa e cultural. Esses 
quatro  valores  –  respeito,  empatia,  reconciliação  e  responsabilidade  –  não  constituem  uma  lista 
exaustiva nem excluem outros valores. A educação ética para a infância não pretende implantar uma 
lista  de  valores  nas  crianças,  mas  alimentar  nelas  a  espiritualidade  necessária  para  viver  em  um 
mundo plural. É necessário ressaltar que os valores éticos e a espiritualidade não constituem duas 
vias diferentes de comportamento, mas estão relacionados e enriquecem-se mutuamente. Uma pessoa 
espiritual será também uma pessoa eticamente correta; e uma pessoa eticamente correta exibe uma 
espiritualidade que outros procuram imitar.

background image

Aprender a Viver Juntos

14

A educação ética

O  Conselho  Inter-religioso  de  Educação  Ética  para  as  Crianças  promove  uma  abordagem  e  uma 
atitude com relação ao outro que se refletem na própria pessoa.

Esta imagem ilustra um processo de aprendizagem que evolui como uma espiral. A aprendizagem, 
com  espaço  para  o  pensamento  crítico,  é  o  que  permitirá  às  crianças  e  aos  adolescentes  forjar  e 
praticar uma relação positiva consigo mesmos, com os outros, com o meio ambiente e com aquilo que 
conhecemos como Deus, Realidade Última ou Presença Divina. O estabelecimento dessas relações 
positivas enriquecerá sua espiritualidade inata, abrindo caminho para o crescimento, a compreensão 
mútua e o respeito às pessoas de diferentes religiões e civilizações. Isso, por sua vez, permitirá que as 
crianças e adolescentes formem alianças com os outros para construir um mundo baseado em valores 
e  práticas  que  salvaguardem  a  dignidade  humana  e  promovam  a  solidariedade,  a  responsabilidade 
individual  e  coletiva  e  a  reconciliação.  A  aprendizagem  implica  que  as  crianças  e  os  adolescentes 
adquiram e pratiquem uma visão da vida fundamentada na ética e nos valores, que deixe espaço para 
o livre pensamento crítico e nutra a espiritualidade.

O  Conselho  Inter-religioso  promove  um  modo  novo  e  dinâmico  de  conceber  a  ética  em  uma 
sociedade globalizada e plural. É algo que todas as religiões e sociedades podem fazer de maneira 
independente; o que é único nesta iniciativa é seu caráter inter-religioso. O Conselho Inter-religioso 
não  promove  uma  nova  religião,  mas  reconhece  e  afirma  a  diversidade.  Não  se  trata  de  um  novo 
“ensinamento”, mas de uma forma nova de enfatizar a necessidade de estabelecer relações positivas. 
Trata-se de um enfoque:

>  intercultural
>  inter-religioso
>  que afirma a diversidade, e
>  que afirma o diálogo e a comunicação consigo mesmo e com os outros em um processo contínuo 

de aprendizagem individual e coletiva.

Ao longo deste processo de aprendizagem vai se criando o espaço necessário para o intercâmbio, a 
interação e o entendimento. Ao promover o pensamento crítico, o entendimento e a abertura mental 
em relação ao outro, este processo capacita as crianças, jovens e adultos para descobrir sua própria 
tradição, seus próprios valores e os valores e tradições alheios. Assim, a interação com os outros gera 
possibilidades  de  enriquecimento  mútuo  em  um  contínuo  ‘dar  e  receber’  que  faz  parte  de  uma 
natureza humana conjunta.