Foto: Carolina Gonçalves/Agência BrasilSaneamento básico é o conjunto de serviços que garantem água tratada, coleta e tratamento de esgoto, destino correto do lixo e drenagem da água da chuva. Em outras palavras, é o que ajuda a manter o ambiente limpo e seguro para viver. Quando o saneamento funciona bem, menos pessoas adoecem, as crianças faltam menos à escola, as famílias têm mais qualidade de vida e o meio ambiente também é protegido.
No Brasil, ainda há grandes desafios, mas existem metas claras para mudar essa realidade. O Marco Legal do Saneamento Básico determina que, até 2033, 99% da população deve ter acesso à água tratada e 90% à coleta e tratamento de esgoto. Um estudo do Instituto Trata Brasil, divulgado em 2025, mostra que já existem contratos e projetos para ampliar os investimentos em saneamento em mais de 1.500 municípios, e outros 1.400 têm expectativa de receber recursos. Por outro lado, mais de 300 municípios ainda têm contratos irregulares e investem muito pouco na área. Hoje, o país investe, em média, 25 bilhões de reais por ano em saneamento, quando o necessário seria quase o dobro.
Entender esse cenário é fundamental para que as famílias possam se proteger, cobrar melhorias e participar das soluções. Nesta entrevista especial, você vai entender como o saneamento básico impacta diretamente a saúde das crianças, das gestantes e de toda a comunidade; e o que pode ser feito para melhorar a situação.
Cíntia TorquettoEntrevista com Cíntia Torquetto, gerente de comunicação e relações institucionais do Instituto Trata Brasil.
Qual é a situação do saneamento básico no Brasil?
CÍNTIA:
Infelizmente, ainda estamos longe do ideal. Segundo o Sinisa [Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico], sistema oficial do governo, mais de 34 milhões de brasileiros ainda não têm água tratada em suas casas, e quase 90 milhões não contam com coleta de esgoto. Além disso, apenas metade do esgoto gerado no país é tratado, e mais de 40% da água potável tratada se perde antes de chegar às residências. O marco legal do saneamento trouxe metas importantes: até 2033, o objetivo é garantir 99% da população com água tratada e 90% com coleta e tratamento de esgoto. Essas metas mostram que é possível mudar essa realidade, mas são necessários investimento, gestão eficiente e prioridade na agenda pública.
Se o acesso à água potável e ao saneamento básico é essencial para a saúde pública e para a dignidade humana, por que ainda existe tanta desigualdade na distribuição desses serviços no Brasil?
CÍNTIA:
A desigualdade existe porque, por muitos anos, o saneamento não foi tratado como prioridade no Brasil. Faltaram investimentos, planejamento das cidades e continuidade de projetos. Ainda há a visão de que “obra enterrada não dá voto”, o que fez muitos gestores deixarem o tema para depois. Essa realidade começa a mudar quando as pessoas entendem o impacto do saneamento na vida de todos. Além de proteger a saúde e o meio ambiente, ele traz benefícios socioeconômicos: reduz internações e gastos com saúde, melhora o aprendizado de crianças e jovens, aumenta a produtividade dos trabalhadores, valoriza imóveis, atrai empresas, gera empregos e fortalece a economia local. Quando a população conhece esses benefícios, passa a cobrar mais, pressionando o poder público. Por isso, a informação é fundamental. Quando a sociedade entende o valor do saneamento, a mudança ganha força.
Programa de rádio Viva a Vida – 1800 - 23/03/2026 - Saneamento Básico
Esta entrevista é parte do Programa de Rádio Viva a Vida da Pastoral da Criança.
Ouça o programa de 15 minutos na íntegra
Como a falta de saneamento básico afeta a vida das pessoas, principalmente das crianças e gestantes?
CÍNTIA:
A ausência de saneamento atinge diretamente crianças, gestantes e famílias mais vulneráveis. Ela aumenta o risco de diarreia, verminoses, problemas respiratórios e até complicações na gravidez. Crianças sem saneamento adoecem mais, faltam mais à escola e têm o desenvolvimento prejudicado, seja no corpo, no aprendizado ou no futuro, porque afeta o rendimento e a renda delas mais adiante.
O saneamento básico é um direito fundamental e dever do Estado. Qual é o papel dos cidadãos, tanto no âmbito individual quanto no coletivo nesse processo?
CÍNTIA:
A sociedade pode e deve reivindicar o direito ao saneamento. Cada cidadão pode participar dessa mudança. Algumas ações possíveis são: procurar a prefeitura e perguntar sobre o plano municipal de saneamento, acionar vereadores para pedir informações e apoio, buscar a operadora de saneamento para saber quando o bairro será atendido, conversar com a agência reguladora da cidade ou do estado, mobilizar vizinhos e a comunidade e, se necessário, acionar o Ministério Público. A mudança começa quando a população participa.
(TESTEMUNHO) Marizeli Freitas Mendes, líder e coordenadora da Pastoral da Criança em Anajás, Prelazia do Marajó, Pará.
Marizeli, como vocês conversam com as famílias sobre a importância do saneamento básico?
MARIZELI:
Na região do Marajó, ainda temos pouco saneamento básico. A maioria das cidades não tem água encanada nem coleta de lixo de qualidade. Organizamos as comunidades para pedir às autoridades mais acesso à água, esgoto e coleta de lixo. Onde não há saneamento, orientamos as famílias sobre como oferecer água em boas condições para as crianças, sobre o descarte correto do lixo e sobre evitar que as crianças brinquem perto de esgoto a céu aberto. Também realizamos oficinas para a produção de filtro caseiro. Isso tem ajudado muitas famílias e reduziu bastante os casos de diarreia em algumas comunidades. São pequenos hábitos que ajudam, enquanto o saneamento completo não chega para todos.
Leia a entrevista na íntegra
1800 - 23/03/2026 - Saneamento Básico
6º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável
“Água potável e saneamento”.
Garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água potável e do saneamento para todos
10º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável
“Redução das desigualdades”
Reduzir as desigualdades no interior dos países e entre países
11º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável
“Cidades e comunidades sustentáveis”
Tornar as cidades e comunidades mais inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis
Dra. Zilda
“Há muito o que se fazer, porque a desigualdade social é grande. Os esforços que estão sendo feitos precisam ser valorizados para que gerem outros ainda maiores”.
“Uma boa ação política, que favoreça a distribuição equitativa de recursos, pode oferecer um serviço eficaz à harmonia e à paz, tanto a nível social quanto no âmbito internacional”.
