cartaz campanha da fraternidade

De uns tempos para cá a expressão “tráfico de pessoas” começou a ficar cada vez mais frequente nas conversas e nos noticiários.  Nas igrejas, com a discussão da Campanha da Fraternidade 2014, cujo tema é Fraternidade e Tráfico Humano e o lema é “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1). O tráfico de pessoas não é algo novo. A história da humanidade está repleta de exemplos e na própria história do Brasil temos a lamentável época da escravidão indígena e  africana.

anha da Fraternidade deste ano traz uma grande oportunidade para reflexão e conscientização de nossas comunidades sobre o tráfico de pessoas, colocando em evidência os perigos e situações a que todos estão sujeitos. Oferece também, algumas formas de preveni-lo e combatê-lo.

Tráfico de pessoas: o que é?

A Organização das Nações Unidas (ONU), no Protocolo de Palermo (2003), definiu o tráfico de pessoas como “o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo-se à ameaça ou ao uso da força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração”.

De acordo com a ONU, no mundo, são mais de 2 milhões de pessoas exploradas no tráfico, destas 30% são crianças (ONU / 2013) e  o tráfico de pessoas movimenta anualmente 32 bilhões de dólares. Desse valor, 85% provêm da exploração sexual. No Brasil, o Ministério da Justiça divulgou um amplo relatório, onde apresenta um panorama global sobre o tráfico de pessoas no Brasil, abordando especialmente a ação dos traficantes e o destino das vítimas. 

O direito de “ir e vir” e o tráfico humano

Muitos se perguntam: como identificar se a pessoa está em situação de mobilidade, ou seja, exercendo seu direito de “ir e vir”, ou se está sendo vítima de tráfico?

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça: “há tráfico de pessoas quando a vítima é retirada de seu ambiente, de sua cidade e até de seu país e fica com a mobilidade reduzida, sem liberdade de sair da situação de exploração sexual ou laboral ou do confinamento para remoção de órgãos ou tecidos. A mobilidade reduzida caracteriza-se por ameaças à pessoa ou aos familiares ou pela retenção de seus documentos, entre outras formas de violência que mantenham a vítima junto ao traficante ou à rede criminosa. Os aliciadores, homens e mulheres, são, na maioria das vezes, pessoas que fazem parte do círculo de amizades da vítima ou de membros da família. São pessoas com quem as vítimas têm laços afetivos. Normalmente, apresentam bom nível de escolaridade, são sedutores e têm alto poder de convencimento. Alguns são empresários que trabalham ou se dizem proprietários de casas de show, bares, falsas agências de encontros, matrimônios e modelos. As propostas de emprego que fazem, geram na vítima perspectivas de futuro e de melhoria da qualidade de vida”. Já no tráfico para trabalho escravo, os aliciadores, denominados de “gatos”, geralmente fazem propostas de trabalho para pessoas desenvolverem atividades na agricultura ou pecuária, na construção civil ou em oficinas de costura.

Saiba mais: 4 passos para enfrentar o tráfico humano

Campanha


Neste ano, a Campanha da Fraternidade quer ir mais além do que as reuniões com famílias e nas paróquias. Com o objetivo de trabalhar os conteúdos da campanha também nas escolas, foram produzidos materiais informativos voltados aos jovens dos ensinos fundamental e médio, além de encontros catequéticos para crianças e adolescentes.

A Campanha da Fraternidade 2014 quer mostrar à população em geral a crueldade do tráfico humano, a situação de dominação e exploração das pessoas traficadas, situação esta que rompe com o projeto de vida, na liberdade e na paz, e viola a dignidade e os direitos do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus.

 Foto: Cartaz Campanha da Fraternidade - CNBB

Entrevista com Pe. Claudio Ambrósio - Campanha da Fraternidade 2014

Padre Claudio Ambrosio

Padre Cláudio Ambrósio - Missionário Escalabriniano

Este ano a CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil,  escolheu o tema da Campanha Fraternidade: Fraternidade e tráfico humano e o lema: “É para liberdade que cristo nos libertou”. O objetivo desta campanha é identificar as práticas de tráfico humano em suas várias formas e denunciá-lo como violação da dignidade e da liberdade humana.

Padre Cláudio Ambrósio, Missionário Escalabriniano, Sociólogo, diretor do Centro de Pastoral dos Migrantes e também pároco da igreja São José em Santa Felicidade Curitiba Paraná, explica os motivos para tratar deste assunto.

Pe. Cláudio, qual o significado do tema e do lema desta campanha?

É bem importante comparar duas palavras: tráfico que está no tema e liberdade que está no lema. A palavra tráfico se refere a comprar, vender, transportar mercadorias, visando lucro. O curioso deste caso é que a mercadoria comprada e vendida são pessoas humanas. Este tema vai nos levar à redescoberta do Deus verdadeiro que quer a liberdade das pessoas e a dignidade das pessoas.

Como acontece o tráfico de pessoas?

Podemos dizer que há 3 etapas para o tráfico humano: a 1ª etapa é o aliciamento, a 2ª etapa é o transporte e a 3ª etapa é a colocação no trabalho.

O aliciador trabalha muito com o sonho das pessoas. Toda pessoa sonha em melhorar de vida, sonha em conhecer outros lugares. As mocinhas sonham em ser modelos, os meninos sonham em ser jogador de futebol e os aliciadores trabalham com este sonho.

A segunda etapa é o transporte: são pessoas que conhecem as rotas da migração, levam o nome de COIOTE e no caso do trabalho escravo levam o nome de GATO. Essas pessoas conseguem colocar o traficado nesta corrente e escondê-lo. Conhece muito bem a legislação de cada nação e conhece as fronteiras mais desprotegidas.

Tanto o Coiote como o aliciador cobram, mas o traficado não sabe que está contraindo uma dívida enorme. E quando ele chega ao local de destino, a pessoa que o recebe já não é mais o aliciador simpático, mas torna-se uma pessoa dura e conta que esta pessoa tem uma dívida e logicamente esta dívida é impagável. Mas diz que conseguirá um trabalho para que ele pague a dívida e pede os documentos. Conseguindo os documentos, o traficado não conseguirá fugir e será obrigado a trabalhar como escravo.

Quais são as formas mais comuns de tráfico de pessoas?

Primeiro é o comércio sexual preferencialmente de mulheres, mas cada vez mais se faz também de homens. A segunda forma é o trabalho escravo, neste caso são preferencialmente homens, e o terceiro caso é o tráfico de órgãos. Recentemente descobriram outras formas semelhantes e uma que chama muito a atenção é a mendicância. Normalmente é o traficante que regimenta a criança ou adolescente e os usa para a mendicância, para vender artigos e fazer pequenos serviços. E  existe também a servidão doméstica e adoções forjadas.

Leia a entrevista na íntegra: 1170 - Entrevista com Pe. Claudio Ambrósio - Campanha da Fraternidade 2014 (.PDF)

Esta entrevista é parte do Programa de Rádio Viva a Vida da Pastoral da Criança. Ouça o programa de 15 minutos na íntegra
Programa de Rádio 1170 - 03/03/2014 - Campanha da Fraternidade 2014

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