1. A experiência de Jesus

“Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”
(Mt 5,12)
Como ler este material
  • Este texto faz parte da série Mística da Pastoral da Criança.
  • Leia com calma. O conteúdo é extenso, mas não há pressa.
  • Se quiser, partilhe esta reflexão com outros líderes.
  • Ao final, reserve um tempo para refletir sobre a sua missão.
Uma palavra inicial

O texto A experiência de Jesus nos convida a olhar para Cristo, especialmente nas bem-aventuranças, como caminho para compreender o verdadeiro sentido da vida e da felicidade. A partir do modo de agir de Jesus, simples, acolhedor e atento aos mais necessitados, somos chamados a renovar nossa missão na Pastoral da Criança. Ao refletir sobre nossa prática, somos motivados a viver a mística do cuidado, transformando gestos simples em sinais concretos do amor de Deus junto às gestantes, crianças e famílias.

1. A experiência de Jesus

No início do Sermão da Montanha, as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12) expressam a ternura, a espontaneidade e o modo de ser de Jesus, humanizado e sempre atento para ajudar, com simplicidade e alegria — o que é muito importante para o ser humano. Qual o sentido da vida humana? Por que vivemos e para onde vamos? Como aprofundamos o verdadeiro sentido da vida? Qual a origem da vida? Por que cuidar da primeira infância?

Acreditamos que a liderança da Pastoral da Criança só se sustenta na ação pastoral porque se questiona todos os dias sobre seu ardor missionário em relação ao que está realizando nas comunidades acompanhadas.

Neste mundo dilacerado por guerras, fome, ódio, divisões, pobreza e escassez de sentido, voltemos o nosso olhar para Jesus e aprendamos com Ele a razão do bem viver. Nele está a fonte da vida e a busca da felicidade.

“Com simplicidade e atenção, Jesus nos ensina o verdadeiro sentido da vida.”

Vivemos para a felicidade — eis a razão de fundo. A felicidade vai além de algo individual e pessoal; como dizíamos na introdução deste material, não é algo individualista, mas comunitário, pois vivemos em comunidade.

Para descobrir a beleza da missão da Pastoral da Criança, é preciso entender a estratégia de Jesus: como Ele iniciou a sua vida pública, o anúncio do Reino dos Céus e para quem se dirigiu em primeiro lugar. Qual foi a mensagem de impacto inicial para que as pessoas se sentissem acolhidas, admiradas e encantadas para estar com Ele?

Aqui, é importante pensar nas maneiras como Jesus se inseria nas comunidades: falava coisas essenciais; com um jeito simples e claro de transmitir sua mensagem; afirmava mais do que reprovava ações; falava de corpo e alma; valorizava o outro e a outra em sua individualidade, inserindo-os na comunidade.

Líder, já pensou na forma como você comunica o Reino às comunidades? Suas palavras, seus gestos, suas ações?

Neste primeiro sermão da vida (Sermão da Montanha, Mt 5–7), descobrimos que as bem-aventuranças são o autorretrato de Jesus. Nelas, Ele deixa transparecer um coração pleno de vida, compassivo, solidário, pacífico e sensível à realidade. Nelas, Jesus não descreve sua felicidade particular, mas oferece uma vida plena e feliz a todo ser humano.

A Igreja, mediante a atitude de Jesus, que se sentou na montanha e começou a ensinar aos discípulos e à multidão ao seu redor, seguiu este exemplo, superando as dificuldades e indo a águas mais profundas.

Na Pastoral da Criança, esta Igreja se torna visível — apoiada pelos(as) líderes, debruça-se sobre a realidade das gestantes e das famílias com crianças de até seis anos de idade. A alma, revestida do mais profundo sentimento de pertença a Jesus, transmite a cada gestante e família a graça de acolher e cuidar das crianças: ser feliz, viver uma vida ditosa e plena nas relações. Todos coincidimos nessa busca.

“A Pastoral da Criança vai ao encontro de quem mais precisa.”

A Pastoral da Criança vai aonde o povo está. Vai aos lugares mais difíceis, conhecendo as realidades vividas e inserindo-se em suas histórias para, nelas, encontrar respostas e caminhos concretos. A Pastoral aponta caminhos.

Jesus instigou seus ouvintes a expandirem sua capacidade de observar, interiorizar, descobrir e agir. Não queria pessoas tímidas, frágeis ou submissas, mas pessoas inspiradas e livres para mudar o sentido da história, pessoal e coletiva.

Fazer parte da missão da Pastoral da Criança é deixar-se inundar pelo zelo de Jesus, que percebia, olhava, sentia e agia em favor dos mais necessitados. Sua ação ia além das curas e da paz restabelecida. Sua meta era tornar as pessoas felizes, pois o destino do ser humano é a felicidade eterna. Essa felicidade deve começar a ser vivida agora, neste mundo.

Nesta missão, os agentes da Pastoral da Criança colocam seus ouvidos à escuta dos lamentos e também das conquistas das famílias, numa postura de quem vai aos mais diferentes espaços e se faz colaborador da vida.

Você, líder, tem a certeza de que é instrumento de acolhimento e de que proporciona às famílias um ambiente de paz e sustenta o sonho de uma vida em abundância? Reflita sobre os momentos em que você chegou à casa e se dispôs a ouvir, com humildade, o que as famílias tinham a lhe dizer.

Rever as bem-aventuranças é entrar na certeza de uma felicidade que cura as feridas deste mundo e promete a alegria para sempre: a felicidade no céu. Este céu já começa a se realizar aqui, quando nos dispomos à escuta e à transformação de ambientes tóxicos em ambientes saudáveis para o crescimento e desenvolvimento infantil e familiar. Nossas orientações são caminhos de descoberta da vida em plenitude.

As bem-aventuranças não descrevem um estado ideal, nem uma lista de prêmios por aquilo que fazemos, mas apresentam um horizonte alternativo. Elas são o “portal de entrada” do Sermão da Montanha, que nos convida a imaginar um mundo em que a violência dê lugar à compaixão, as relações sejam justas e todos tenham acesso aos recursos necessários. Não se trata de alcançar alturas espirituais, mas de expandir a vida para tornar possível um mundo diferente, conforme o sonho do Reino de Deus, iniciado por Jesus. “Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,12).

“Nos gestos simples, o cuidado se torna presença de Deus.”

Quantas vezes nos colocamos a caminho com a “toalha” que enxuga pés e transforma o ambiente familiar em um lugar sagrado de encontro com o Deus da vida! Isso se dá de maneira prática, com recursos simples, onde o “Verbo se faz carne”.

As bem-aventuranças nos situam em um novo espaço, a partir do qual podemos ter uma nova perspectiva da realidade e de Deus. Esse espaço é o Reino de Deus, e as bem-aventuranças são centrais para compreendê-lo.

O gosto pelo Reino de Deus, presente no encontro entre líder e família, realiza-se na constante interação entre fé e vida. É isso que queremos: uma casa, uma rua, uma comunidade, uma cidade com ações concretas de saúde, educação, nutrição e cidadania, presentes no dia a dia do povo.

Na formulação de cada bem-aventurança há duas partes: o que nos pede e o que nos promete. Pede-nos revestir-nos do modo de ser de Jesus, vivendo a partilha, a comunhão, a não violência, a compaixão, a autenticidade e a misericórdia.

No fundo, as bem-aventuranças são caminho para descobrir Deus em nós e nos outros. Isso nos faz felizes, pois encontramos o tesouro escondido: Deus em nós. Assim, nossa vida adquire um sentido pleno.

Querido líder, querida líder: você já descobriu o que é ser bem-aventurado(a)? Já refletiu sobre sua prática pastoral?

Infelizmente, a espiritualidade cristã, muitas vezes, se ocupou mais do sofrimento do que da alegria, alimentando uma religião do medo e da culpa, distante da felicidade e do prazer de viver.

E o que é essa felicidade? É um estado de serenidade: a capacidade de atravessar as dificuldades sem cair no desespero.

“A felicidade se revela nas pequenas alegrias do dia a dia.”

É acalmar a consciência e repousar a mente.

É uma vivência mansa, mas sem acomodação.

Na prática da Pastoral da Criança, essa felicidade se manifesta em atitudes simples: escutar sem julgar, ajudar sem esperar retorno.

A fé permanece firme mesmo quando não vemos resultados imediatos. Ainda assim, continuamos a espalhar o bem.

Nós, cristãos, às vezes esquecemos que o Evangelho é uma resposta a esse desejo profundo de felicidade que habita o nosso coração. Às vezes, não conseguimos ver em Cristo alguém que promete a felicidade e que nos conduz até ela. Não acreditamos que as bem-aventuranças, antes de serem exigências morais, são o anúncio de uma vida ditosa. Temos a tendência de pensar que a fé está relacionada exclusivamente a uma salvação futura, distante, e não à felicidade concreta de cada dia.

O caminho desenhado nas bem-aventuranças pode nos fazer conhecer a felicidade vivida pelo próprio Jesus. Somente assim, nossas pequenas alegrias alcançarão sua plenitude.

Pois bem, ao refletirmos sobre a experiência de Jesus, somos convidados a entrar na mística, na beleza e na alma da Pastoral da Criança. Trata-se de uma ação qualificada da Igreja, ancorada no Evangelho, inaugurado por Jesus Cristo, para ajudar no cuidado da primeira infância de nossas queridas crianças. É uma ação diferenciada dos modelos de proteção que o Estado oferece às crianças, adolescentes e pessoas idosas. É uma pastoral que segue a inspiração de Jesus, o Bom Pastor. Fazemos pastoral e não assistência social. Cuidar do jeito como Jesus cuidou e continua cuidando de nós, cristãos de boa vontade.

“A felicidade se constrói em comunidade.”

A mística da Pastoral da Criança é sublime porque se ocupa de sua dimensão humana, afetiva, espiritual, eclesial e social. Preza pela proximidade, aprofunda a cultura do encontro, do observar, do alertar, do encaminhar para relações fraternas, solidárias e humano-cristãs. A referência é Jesus, a partir da proclamação do grande Sermão: as bem-aventuranças. Nelas, Jesus ensina o caminho da felicidade. Sem a tônica da felicidade, não faz sentido fazer Pastoral da Criança. Pesar, medir, alimentar, brincar, cuidar, prevenir, educar são verbos caros e decisivos para o cultivo e o cuidado de uma vida humana equilibrada, justa e feliz.

Todas as pastorais, os momentos celebrativos nas comunidades de fé, os movimentos e toda a dimensão social têm razão de ser quando se preocupam com as gestantes, as famílias e as crianças na primeira infância. É neste estado de vida que nasce a razão de ser da Igreja, que se ocupa com a mística do cuidado, ocupação diária de Jesus ao anunciar o Evangelho da alegria.

“É no cuidado com a vida que encontramos o caminho da verdadeira felicidade.”

Que descubramos a beleza e a plenitude da eficácia da Pastoral da Criança e busquemos, na inspiração bíblica, os caminhos seguros que nos conduzem ao Reino da alegria, da felicidade para sempre.

Para o dia a dia da missão

Convidamos a refletir sobre estas perguntas a partir da sua experiência como líder. Se possível, partilhe com outros líderes e veja como esses pontos podem iluminar suas visitas e ações na comunidade.

1. Como está meu “jeito de falar” nas visitas?
Jesus comunicava com simplicidade, afirmando mais do que corrigindo.

2. Tenho escutado mais ou falado mais nas visitas?
Jesus se colocava à escuta das pessoas, valorizando suas histórias e acolhendo suas realidades.

3. Minha missão está me levando à alegria ou ao cansaço sem sentido?
A missão nasce da felicidade vivida em Deus e não de um peso que desanima ou esvazia o sentido.

4. Tenho ajudado as famílias a perceberem sinais de esperança na vida delas?
As bem-aventuranças anunciam a felicidade possível, mesmo nas situações mais simples e difíceis.

5. Nas comunidades, promovemos mais julgamento ou acolhimento?
Jesus acolhia e valorizava cada pessoa, criando caminhos de encontro e não de exclusão.

6. Minha atuação está mais próxima da pastoral ou da assistência?
A Pastoral da Criança vai além do cuidado material: anuncia a vida, a dignidade e a presença de Deus.

Referência bibliográfica
BORTOLINI, José. Roteiros homiléticos: anos A, B, C: festas e solenidades. São Paulo: Paulus, 2006. 8. reimpr., 2017.

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